Alfabetização: na Educação Infantil também se brinca com letras e sons

Alfabetização: na Educação Infantil também se brinca com letras e sons

Alfabetização: na Educação Infantil também se brinca com letras e sons

O processo de alfabetização é uma das discussões mais relevantes da atualidade no que diz respeito à educação no Brasil. Um dos pontos polêmicos é a ideia, a nosso ver equivocada, de que na Educação Infantil as crianças devem brincar e que, portanto, não se deve propor atividades com letras ou números antes que ela complete 6 anos e ingresse no 1º ano do Ensino Fundamental. A premissa é verdadeira, mas a conclusão não é! Trata-se de uma simplificação.

A alimentar nosso dilema, os dados da Avaliação Nacional da Alfabetização, divulgados em 2017, que mostram que, no Brasil, mais da metade das crianças com idade entre 8 e 9 anos apresentam nível de alfabetização considerado insuficiente. A prova foi aplicada para alunos do 3º ano.

Para avançarmos nessa discussão, é preciso refletir sobre alguns aspectos importantes.

  • A alfabetização é um processo.

Se queremos que a criança seja alfabetizada até os 7 anos, devemos introduzi-la no mundo da leitura e da escrita muito antes. Quanto mais repertório a criança tiver, com mais facilidade ela se alfabetizará. Repertório de quê? De textos, dos mais diferentes gêneros. De música, dos mais diferentes gêneros. Também é importante que conheçam as letras e os números, que reconheçam seu uso social e que saibam buscar as informações que desejam para fazer um registro, um cálculo, enfim, para dar conta de suas curiosidades. Não há idade para isso.

  • Alfabetizar não é simplesmente ensinar um código.

Como disse anteriormente, a alfabetização é um processo. E um processo bastante complexo, pois alfabetizar-se não significa aprender um código. Dessa forma, não adianta simplesmente memorizar uma porção de sílabas ou fonemas. É necessário que a criança reflita sobre a relação entre letras e sons a fim de que ela construa hipóteses e continue a testá-las, percebendo as regularidades da língua, até que possa internalizá-la.  Por outro lado, essa reflexão não se dará espontaneamente. É preciso que os professores criem situações-problema capazes de estimular essa reflexão acerca da relação entre letras e sons em contextos reais de comunicação, pois a língua tem uma função social. Isso tudo leva tempo. Não se alfabetiza em um ano, principalmente quando se acredita que ninguém se alfabetiza copiando, copiando, sem pensar.  A alfabetização é um processo de dentro para fora e não o contrário.

  • Também se pode brincar com fonemas e grafemas

A criança deve brincar sim! Pois é brincando que ela experimenta o mundo e aprende. Não tem nada de divertido em copiar várias vezes uma sílaba ou uma palavra, completamente fora de contexto. Mas pode ser muito divertido brincar com palavras, descobrindo, aos poucos, a relação entre letras e sons. O trabalho com quadrinhas, parlendas e cantigas, por exemplo, proporciona muitos desafios e descobertas para os pequenos que, de forma lúdica, vivenciam práticas de leitura e escrita. Brincando, as crianças compreendem as propriedades do Sistema de Escrita alfabética ao mesmo tempo em que vivem práticas letradas, o que, para nós, são aspectos indissociáveis num processo de alfabetização.

Enfim, a nosso ver, há um equívoco na afirmação de que na Educação Infantil se deve brincar e então é proibido ler e escrever. “Brincar” e “ler e escrever” não são coisas que se excluem mutuamente. É claro que não se pretende que uma criança domine o sistema de escrita aos 4 ou 5 anos, mas, a nosso ver, é indispensável que ela não seja privada do contato com práticas letradas e atividades reflexivas, capazes de levá-las a perceber, aos poucos, o funcionamento desse sistema.

A Base Nacional Comum Curricular, inclusive, explicita isso quando define os objetivos de aprendizagem do Campo “Escuta, fala, pensamento e imaginação”:

(EI03EF06) Produzir suas próprias histórias orais e escritas (escrita espontânea), em situações com função social significativa” ou “(EI03EF07) Levantar hipóteses sobre gêneros textuais veiculados em portadores conhecidos, recorrendo a estratégias de observação gráfica e/ou de leitura”, e ainda “(EI03EF09) Levantar hipóteses em relação à linguagem escrita, realizando registros de palavras e textos, por meio de escrita espontânea”.

E o que é a escrita espontânea senão a hipótese de escrita? Como poderia uma criança ter uma hipótese de escrita se não tivesse contato com textos diversos e se não fosse instigada a refletir sobre o sistema de escrita? E o que seria a leitura, ainda que não-convencional, de textos memorizados, senão mais uma oportunidade de refletir sobre a relação entre letras e sons?

Portanto, se consideramos que a alfabetização é um processo muito mais complexo do que a aprendizagem de um código, que tem início com a prática letrada e a construção da consciência fonológica e que ambas as práticas são indissociáveis, então sim, a alfabetização tem início na Educação Infantil.

Fábia Cristina do Carmo Vilela

Pedagoga, Licenciada em Letras, Mestre em Comunicação e Semiótica e Diretora do Colégio Luce Prima

Luce Prima

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